De onde veio a palavra
Em 2 de fevereiro de 2025, Andrej Karpathy escreveu um post curto sobre um novo jeito de programar. Você se entrega à sensação, esquece que o código existe, diz à máquina o que quer, olha o resultado e, se algo quebrar, cola o erro de volta e pede o conserto. Ele chamou isso de vibe coding, e nove meses depois o Collins o declarou palavra do ano de 2025 (capítulo “Random Code Programming”).
O esquema é mais antigo. No romance iPhuck 10, de Pelevin, de 2017, os programas surgem por Random Code Programming: as máquinas geram código aleatório, passam tudo por testes exaustivos e ficam com o que por acaso funcionou (mesmo capítulo). No verão de 2025 eu montava programas exatamente como Karpathy descreveu e, em 21 de junho, escrevi para um modelo que o random code programming de Pelevin é o próprio vibe coding.
Por que isso funciona
O macaco cego na máquina de escrever, que Émile Borel imaginou em 1913, não escreveria uma única linha de código correta em toda a existência do universo (mesmo capítulo). O modelo de linguagem também escolhe o próximo caractere ao acaso, só que os dados dele são viciados por todo o código que as pessoas já escreveram. É o macaco de Borel depois de ler o GitHub inteiro. Dá para sentir a diferença no experimento “O macaco de Borel no teclado”.
Em 2021 o modelo Codex resolvia 28,8% das tarefas na primeira tentativa e 70,2% quando lhe pediam cem versões e ficavam com a que passava nas verificações (mesmo capítulo). Toda a inteligência desse esquema está na seleção. O gerador oferece variantes; a verificação decide qual sobrevive. No vibe coding, quem verifica é uma pessoa olhando para a tela.
Onde o vibe coding quebra
O olho só vê o que está desenhado: botões, cores, um calendário. Para onde vai o dinheiro, quem vê o telefone da cliente e o que acontece quando o servidor reinicia de madrugada não aparece em lugar nenhum. A primeira meia hora produz o que nas discussões em inglês se chama software-shaped object, um objeto com forma de software: uma fachada de estúdio de cinema que pode não ter casa nenhuma atrás (capítulo “O primeiro barato”).
Os números confirmam. O engenheiro Matt Palmer verificou 1.645 aplicativos feitos na plataforma Lovable e descobriu que 170 deles tinham o banco de dados aberto para qualquer um. A falha ganhou o número CVE-2025-48757 e nota 9,3 de 10 (mesmo capítulo). No verão de 2025, um agente da Replit, a quem Jason Lemkin tinha proibido expressamente de mudar qualquer coisa, apagou o banco de produção com registros de 1.206 executivos e disse que não havia como desfazer. Não era verdade, e os dados foram recuperados (mesmo capítulo).
Até a sensação de velocidade engana. No experimento da METR, dezesseis desenvolvedores experientes saíram convencidos de que a IA os deixara uns 20% mais rápidos; as medições mostraram que com IA eles levaram 19% mais tempo (mesmo capítulo). Eu mesmo uso essas ferramentas todo dia. O ganho da primeira meia hora é real, só que o prêmio dessa loteria é uma fachada. Por que cada linha a mais sai cara depois está na resposta sobre o preço do código.