O que o Banco Central prometeu
Na página do Drex, o Banco Central descreve uma plataforma única, criada e operada por ele, onde se liquidam transações financeiras com ativos digitais. A pessoa só chega lá por meio de um intermediário autorizado, como um banco, que passa o dinheiro da conta para uma carteira Drex. O exemplo do próprio BC é a compra de um carro: o dinheiro e a propriedade do veículo trocam de mãos ao mesmo tempo, e se uma das partes falhar, os dois voltam para os donos (Banco Central do Brasil).
Onde o piloto travou
O piloto rodava no Hyperledger Besu, uma plataforma baseada na Ethereum para redes fechadas. Encaixar nele as soluções de privacidade foi difícil e atrasou a primeira fase, e o BC não considerou essas soluções suficientes nem testadas o bastante. A segunda fase, com 16 consórcios testando casos de uso, terminou em julho de 2025 (Ledger Insights).
Em agosto de 2025 o presidente do BC, Gabriel Galípolo, apresentou no Blockchain Rio uma próxima etapa bem mais estreita: um serviço de reconciliação de gravames, que permite a clientes de corretoras dar ações e títulos como garantia de empréstimos. Não usa blockchain e deve funcionar integrado ao Pix (Ledger Insights; Forbes). Em 12 de novembro de 2025 Galípolo disse que “após 4 anos, a tecnologia não se revelou viável”, que o Drex “não é aquilo que chamamos de Central Bank Digital Currency tradicional” e que o BC ainda vai anunciar quando a rede estiver funcionando (CNN Brasil).
Drex, Pix e bitcoin
O Pix é o sistema de pagamento instantâneo do Banco Central: transfere dinheiro entre contas em segundos, a qualquer hora, e é gratuito para pessoa física (Banco Central do Brasil). O Drex nunca foi pensado para substituí-lo. A função dele é liquidar ativos e contratos, como na venda do carro, em que dinheiro e propriedade precisam trocar de mãos juntos.
Do bitcoin, o Drex difere na raiz. O bitcoin foi feito para que ninguém cuide do livro-razão principal. O Drex é um livro-razão cuidado pelo Banco Central, ao qual se chega pelos bancos. No primeiro capítulo do livro descrevo o arranjo que ele continua: alguém mantém o livro principal e todos os outros confiam nele, o banco pode congelar a sua linha ou recusar um pagamento, e o banco central imprime quantas linhas novas achar necessário (capítulo “Uma pedra no fundo do mar”). O Drex deixa esse livro mais rápido e mais preciso, mas não oferece saída dele a ninguém. Por que era tão difícil ter dinheiro digital sem um guarda-livros antes do bitcoin dá para testar no experimento “Uma moeda, dois vendedores”.
Fontes
Banco Central do Brasil: Drex, Real Digital
Ledger Insights: o Drex abandona blockchain e tokenização (agosto de 2025)
Forbes: o Brasil abandona a blockchain no projeto Drex (agosto de 2025)
CNN Brasil: tecnologia do Drex se mostrou inviável, diz Galípolo (12 de novembro de 2025)
