Como foi o negócio
Em maio de 2010, Laszlo Hanyecz, um programador de Jacksonville, na Flórida, escreveu no fórum do bitcoin que pagaria dez mil moedas por duas pizzas grandes. Dava para assar em casa ou pedir numa pizzaria; o importante era que entregassem na casa dele e que viessem bem recheadas. Por quatro dias ninguém apareceu. Então um estudante de dezenove anos da Califórnia, que usava o apelido jercos, pediu para ele duas pizzas da Papa John’s com o próprio dinheiro, uns 25 dólares, e recebeu em troca dez mil bitcoins. Hanyecz postou no fórum fotos das caixas e da filha esticando a mão para uma fatia (capítulo “Dez mil por uma pizza”).
Dez mil moedas não eram grande fortuna para ele. Duas semanas antes da pizza, ele tinha publicado um programa que minerava bitcoin na placa de vídeo do Mac, dezenas de vezes mais rápido que o processador. Satoshi mandou um e-mail pedindo, com jeito, que ele não apressasse as coisas: o grande atrativo para os novatos era que qualquer pessoa com um computador podia gerar algumas moedas, e as placas de vídeo entregariam essa chance cedo demais a quem tinha hardware caro. Hanyecz gostou tanto da pizza que repetiu o pedido várias vezes e, pelas contas dele, comeu cerca de cem mil bitcoins naquele verão.
Por que a pizzaria não recebeu nenhum bitcoin
A Papa John’s não viu bitcoin nenhum. O estudante pagou em dólares, pelo mesmo sistema financeiro do qual o bitcoin prometia livrar o mundo, e a rede de Satoshi só passou dez mil moedas de uma carteira para outra para acertar esse pagamento (mesmo capítulo). A primeira compra com o novo dinheiro sem intermediários passou por um intermediário e, nesse sentido, previu os quinze anos seguintes melhor que qualquer whitepaper.
Quinze anos depois, o maior comprador de bitcoin era o maior intermediário do planeta. Os clientes dos fundos negociados em bolsa americanos, o da BlackRock entre eles, não guardam chaves nem enviam moedas; eles têm cotas do fundo, e os bitcoins de quase todos esses fundos ficam com uma única empresa, a corretora Coinbase (capítulo “Um índice de lavagem de dinheiro”).
Quanto esses bitcoins valeriam hoje
Eu mesmo minerava naquele verão, no processador de um MacBook, e minhas cem moedas na Mt.Gox, que abriu poucos dias depois do artigo no Habr, valiam alguns centavos cada. Em fevereiro de 2011 o bitcoin empatou com o dólar pela primeira vez. No pico do outono de 2025, minhas cem moedas teriam valido mais de 12 milhões de dólares; pelo mesmo preço, as pizzas de Hanyecz custaram mais de um bilhão.
Hanyecz repetiu em várias entrevistas que não se arrepende da pizza. Todo 22 de maio a comunidade cripto pede pizza e calcula quanto aquelas dez mil moedas valeriam hoje. Dá para fazer a conta aqui também, no experimento “Quanto custou a pizza”: ele traz os preços que o livro menciona, de maio de 2010 ao outono de 2026, e um campo para o preço de hoje.
O que mais aconteceu naquele verão
Em 15 de agosto de 2010, três meses depois da pizza, apareceu no bloco 74.638 uma transação que criou do nada 184 bilhões de bitcoins, quase nove mil vezes mais do que poderia existir pelas regras. Alguém tinha achado um erro de overflow no programa. Em menos de cinco horas, Satoshi e os outros desenvolvedores lançaram uma versão corrigida, a rede reconstruiu a cadeia a partir do bloco anterior ao erro, e as moedas extras sumiram (mesmo capítulo).
Fizeram bem; do contrário, o bitcoin teria acabado em 2010. Só que essa história já trazia tudo o que depois se evita com constrangimento nas conversas sobre código que é a própria lei. Quando o código errou, alguns desenvolvedores escolheram a história verdadeira, e a rede concordou com eles. Como a soma de duas saídas virava zero e passava na verificação está no experimento “184 bilhões do nada”.
