Cancelei dezessete assinaturas SaaS em duas semanas. Quatro meses depois, não voltei pra nenhuma
Em janeiro a contabilidade me mostrou US$ 9.760 por ano em software. Abri uma lista de vinte e duas assinaturas e cancelei dezessete. O que cortei, o que ficou e por quê.
Em janeiro de 2026 nossa contabilidade mandou o relatório anual de despesas — coisa de sempre, fim do exercício, impostos, tudo isso. Folheei. Na terceira página: a linha "Software & Subscriptions". Total: US$ 9.760.
Nove mil setecentos e sessenta dólares por ano em ferramentas que eu — uma pessoa numa empresa pequena — uso pra fazer meu trabalho. Dá US$ 813 por mês. Pra ter dimensão: é mais do que pago de aluguel numa das cidades onde meu time e eu trabalhamos nos últimos dois anos.
Abri uma planilha, sentei e listei todas as assinaturas. Deu dezoito ativas, mais quatro que esqueci de cancelar (incluindo uma de US$ 39 por mês em que eu não entrava desde maio do ano passado — uma dor à parte). Em seguida fiz o que estava enrolando há tempos: marquei cada assinatura com uma de três etiquetas — "abri esta semana", "abri este mês", "nem abri".
Abri esta semana — cinco. Abri este mês — quatro. Não abri — nove.
Treze foram naquela mesma noite: as nove que eu não abria e as quatro esquecidas. Mais quatro duas semanas depois, depois de um teste curto de "e se eu tiver errado". Dessas dezessete, não voltei pra nenhuma em quatro meses.
Primeiro, as que cortei e por quê. A questão não é que as ferramentas sejam ruins. A maioria é excelente. A questão é que eu parei de usar a função pela qual assinei. E essa virada aconteceu sem barulho, em segundo plano.
Calendly Pro, US$ 20/mês. Assinei há dois anos, quando fazia 8 reuniões por dia. Hoje faço 2-3, e pra isso o Cal.com (gratuito, open source) sobra. Menos US$ 240/ano. Ninguém percebeu.
Grammarly Premium, US$ 30/mês. Aqui é uma história à parte. Continuo escrevendo em três idiomas, e o Grammarly foi indispensável pro inglês na época. Mas em 2026 jogo um trecho de texto e peço pro Claude limpar — sai melhor, porque o Claude lê o sentido, não só a gramática. O Grammarly virou invisível. Menos US$ 360/ano.
Otter.ai Premium, US$ 20/mês. Transcrição de chamadas. Parei no momento em que ficou claro que depois da reunião é melhor eu mesmo rabiscar cinco bullets do que ler uma transcrição de trinta minutos em que 95% é enchimento. Transcrição ajuda quando você não estava na reunião. Se estava — atrapalha. Menos US$ 240/ano.
Mixpanel, US$ 40/mês. Analytics pra um dos sites. Migrei pro Plausible gratuito porque eu precisava exatamente de três números — visitantes, fontes, caminho. Mixpanel é uma ferramenta poderosa pra um time que toma Big Product Decisions. Eu não tenho Big Product Decisions agora. Tenho três números. Menos US$ 480/ano.
Loom Pro, US$ 15/mês. Mensagens em vídeo. Parei de gravar porque ninguém assiste vídeo de mais de 90 segundos, e o Loom gratuito limita a cinco minutos — o que pra mim em 2026 já é mais do que preciso. Menos US$ 180/ano.
Webflow, US$ 39/mês. Outra história à parte — eu tinha lá uma landing. Reescrevi em Next.js em meio dia (o Cursor fez o trabalho pesado) e migrei pra Vercel. Menos US$ 468/ano, mais US$ 0 de hospedagem.
HubSpot Starter, US$ 50/mês. CRM. Percebi que a qualquer momento tenho 8-12 clientes no pipeline ativo, e HubSpot pra isso é tanque pra esmagar formiga. Migrei pra uma tabela simples no Notion. Menos US$ 600/ano.
Buffer, US$ 15/mês. Postagem em redes. Percebi que minha "estratégia de conteúdo" é "quando algo é escrito, eu publico". Não preciso de agendador — preciso clicar em "publicar". Menos US$ 180/ano.
Pitch, US$ 10/mês. Apresentações. Tive dois pitches no ano passado. Fiz os slides no Figma e exportei pra PDF. Menos US$ 120/ano.
Notion AI, US$ 10/mês. Assinei há um ano por curiosidade. Usei exatamente três vezes desde então, porque eu já tenho o Claude, e ir até a IA em outra janela é um passo a mais. Menos US$ 120/ano.
Linear, assento extra de workspace, US$ 8/mês. Pura dívida administrativa. Menos US$ 96/ano.
Assento de Editor no Figma, US$ 15/mês. Parei de criar design no Figma — reorganizei o processo pra que eu olhe em modo viewer (gratuito) e o designer encoste no arquivo. Menos US$ 180/ano.
As doze listadas acima dão US$ 3.264/ano. As outras cinco pesavam mais: US$ 4.816.
O que ficou — cinco ferramentas em que vivo todos os dias. Cada uma e o motivo pelo qual não cai na faca.
Cursor, US$ 20/mês. Editor de código com IA embutida. É minha ferramenta principal. Abro todo dia. Escrevo nele não só código, mas uma boa parte dos textos (este incluso). Existem alternativas, mas eu pagaria US$ 40 ou US$ 60 pelo Cursor. Não é propaganda — é diagnóstico.
Claude Pro, US$ 20/mês. Chats com o modelo. Uso principalmente pra editar, pra digerir documentos longos, pra preparar reuniões. Tentei uma vez viver só com a API — não rolou, porque a interface de chat é mais rápida quando a pergunta é desestruturada.
API da Anthropic, ~US$ 70/mês. Pra tudo que é automatizado — processar e-mails, gerar respostas, classificar tarefas. É combustível. Pay-as-you-go, nunca foi excesso. Ano passado eu pagava mais — passei pra modelos menores na rotina, a conta caiu um terço.
Notion, US$ 10/mês. Documentos, anotações, tabelas, CRM fraco. Uma pessoa, um workspace, zero vontade de complicar. Notion em 2026 é o lugar onde mora toda a minha memória escrita. Nada substitui.
Vercel, US$ 20/mês. Hospedagem de todos os meus sites e ferramentas. Existem alternativas mais baratas. Já fiz a conta — economia de US$ 5-10 por mês, perda de horas por ano em configuração. Não vale.
Total: US$ 140/mês = US$ 1.680/ano. Antes era US$ 9.760. Economia — US$ 8.080 por ano. No lugar desse dinheiro, agora tenho uma operação simples: sei pelo que pago todo mês e consigo descrever cada linha em uma frase. Isso, descobri, é um estado raro pra um fundador em 2026.
Três conclusões pouco óbvias que tirei desse exercício.
Uma. A maioria dos SaaS é especializada num processo de trabalho que você já mudou. Calendly é bom quando você faz 8 reuniões por dia. HubSpot é bom quando você tem 200 leads no pipeline. Webflow é bom quando você não tem dev e faz landings. Se seu processo mudou e a ferramenta ficou — ela funciona por inércia, não por utilidade.
Duas. A IA engoliu uma fatia séria dos SaaS de nicho. Grammarly, Otter, Notion AI — são todos "modelos especializados" da era em que o modelo geral não dava conta. Em 2026 o modelo geral dá. Não perfeitamente, mas — suficiente pra economizar três assinaturas especializadas.
Três. Assinaturas "de US$ 10 por mês" são a categoria mais perigosa. Fáceis de aprovar, fáceis de esquecer, fáceis de acumular uma dúzia. Quando você tem doze assinaturas de US$ 10, são US$ 1.440 por ano, e cada uma sozinha parece nada. Eu agora olho assinatura nova em dinheiro anual. "São US$ 120 por ano" é outra conversa, diferente de "são US$ 10 por mês".
Hoje mantenho essa lista no Notion (claro, onde mais). Faço a varredura uma vez por trimestre. Em abril cortei mais duas — um serviço pra acompanhar posições no Google e um pra monitorar certificados SSL (um cron resolve de graça). Sobraram três. Aliás, quatro — adicionei uma nova pra uma tarefa específica em que nem o Claude nem o Cursor davam conta.
Boas assinaturas são ferramentas de trabalho. Más assinaturas são um arquivo de intenções que você paga todo mês. Um ano sem separar é US$ 8.000 de arquivo que precisa sumir.