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8 de junho de 20267 minleadership

Saí de todos os chats da equipe por um mês. Voltei pra alguns, não pra todos

Em fevereiro eu respondia nos chats da equipe das 7:30 às 23:00. Em março fiquei calado quatro semanas. O que aconteceu com o time e comigo.


Final de fevereiro de 2026, eu estava na minha cozinha numa quinta às dez da noite, conversando com minha esposa sobre algo importante (não lembro o quê), e olhei o celular dezessete vezes em uma hora e meia. Toda vez — Slack. Toda vez — chat da equipe. Metade sobre coisas em que eu não tinha opinião particular. Eu respondia tudo. Era um bom fundador.

Sexta de manhã fiz as contas. Das 7:30 às 23:00 — uns duzentos mensagens por dia em três canais: o geral "time", "engenharia" e "vendas". Desses, uns quarenta eram meus. Desses quarenta, uns cinco realmente exigiam resposta minha. Os outros trinta e cinco eram participação educada. Reações 👍. Perguntas pra confirmar. "Beleza, valeu." "Concordo com a Anya." "Marcamos amanhã?". Coisa boa: era um bom fundador. Coisa ruim: não era muito bom em mais nada.

Sexta à noite anunciei o experimento. Por um mês saio de todos os chats em grupo. Fica um canal — DMs de duas pessoas: o CTO Lyosha e a Anya da operação. O resto — sem mim.


Os três primeiros dias fiquei irritado feito paciente que pulou o café da manhã. Não parava de procurar o Slack. Abria. Lembrava. Fechava. Sentia que estava perdendo — o quê? — alguma coisa. O quê exatamente, não conseguia formular.

Segunda no almoço a Anya ligou. "Oi, uma coisa — você não viu no chat — o Grisha quer começar as férias uma semana antes, beleza pra você?". Sim, claro, falei. Anya: "Achei mesmo, respondi pra ele e te marquei por garantia. Desculpa atrapalhar." Desliguei e entendi a primeira lição.

A Anya já sabia tomar essa decisão. O lance é que eu respondia mais rápido do que ela terminava de ler a própria resposta. Não deixava ela fechar o raciocínio em voz alta. Eu adiantava. E ela, como qualquer funcionário normal, parou de formular conclusões — quem passou a formular fui eu.

No fim da primeira semana a Anya já mandava esses recados sem esperar meu OK. No fim da segunda — parou de mandar. As decisões eram tomadas. Eu ficava sabendo uma vez por semana no 1-1.


A segunda semana trouxe algo que eu não esperava. O time começou a conversar entre si de outro jeito.

Antes eu não enxergava, porque na minha presença a dinâmica era uma só. Quando o CEO está no chat, todo mundo olha de canto pro CEO. Cada mensagem — inclusive a sua — é escrita menos pro colega e mais pensando no que o CEO vai ler. Medo não tem nada a ver. Atenção é recurso limitado. Primeiro você gasta no "como o Mike vai ler isso", e só o que sobra vai pra "o que eu quero falar pro Lyosha".

Quando saí, o chat ficou mais curto e mais claro. O Lyosha me falou na quarta semana: "Sabe, a gente tá escrevendo menos. E combinando as coisas mais rápido. Achei que era junho e o pessoal em modo férias. Mas depois entendi — é porque a gente não tá te esperando. Antes precisava esperar sua reação pra saber se a gente seguia ou se você ia entrar. Agora não precisa."

Sentei e pensei nisso por um tempo. Foi um pensamento desagradável. Eu freava o processo. Não com minhas decisões. Com a minha presença mesmo.


A terceira semana deu o único teste real. Quebrou uma integração com um serviço externo — o que processa os pagamentos dos clientes. Pelo roteiro antigo isso teria caído no chat geral: "Mike, deu pau, e agora?". Eu chegaria correndo, começaria a desenrolar, apressaria alguém, em uma hora arrumado.

Pelo roteiro novo aconteceu o seguinte. O Lyosha viu a falha às 11. Escreveu na engenharia (sem mim): "A integração tá fora, quem tá livre?". Um dos meninos — Dima — pegou. Arrumado à uma. Às 14:15 o Lyosha me mandou DM: "Tivemos queda dos pagamentos das 11 às 13. Resolvido. Estrago — três tickets no suporte, respondidos. Mais detalhes no 1-1 de quarta." Li. Respondi "valeu, entendi." Fechei o celular. Fui almoçar.

Nesse momento ficou claro — pra bem ou pra mal — que a maior parte do meu trabalho operacional acontecia não porque não dava pra fazer sem mim, mas porque eu chegava primeiro. Tira o "chego primeiro", e aparece outro no meu lugar. E esse outro faz, em média, igualmente bem.

(Às vezes melhor. Isso foi ainda mais incômodo.)



A quarta semana foi estranha. O time trabalhava. Eu estava livre. Ficava — às vezes — entediado. Isso, descobri, é um sinal próprio importante: tédio do fundador na quarta semana do moratório significa que sua carga operacional era menor do que parecia e maior do que precisava.

Nessa semana fiz três coisas que vinha empurrando há um ano e meio. Reli nossa estratégia (achei dois pontos onde eu me contradizia, corrigi). Liguei pra dois clientes que vinha querendo retornar — os dois tinham trabalho novo. Escrevi um pedaço grande deste blog, incluindo um texto que talvez você já tenha visto.

Esse é outro trabalho. Aquele que precisa de horas seguidas. Aquele que é impossível fazer quando seu Slack apita a cada sete minutos.


Em 1º de abril voltei pros chats — mas não pra todos.

Pro "time" geral — sim, é onde ficam avisos, aniversários, novidades. Apareço uma vez por dia no almoço, leio, reajo, saio.

Pra "engenharia" e "vendas" — não. Não voltei. As decisões dessas áreas o time toma sozinho. Uma vez por semana — 1-1 com Lyosha e Anya, quarenta minutos cada. Suficiente.

A regra que coloquei: se for urgente, me chamam no DM. A palavra "urgente" num chat do time com a minha menção é não-urgente — é um pedido pra que eu assuma a responsabilidade. Urgente chega como ligação ou DM marcado "por favor olha em uma hora". Em dois meses isso aconteceu duas vezes. Uma emergência real. Uma a Anya só estava preocupada.


Sei que isso não funciona pra todo tipo de time. Numa empresa de duas pessoas o fundador não tem outra — ele é o processo. Numa de cem pessoas o fundador não fica nos chats em grupo por padrão. Esse problema é pra times de sete a trinta e cinco, onde o fundador ainda se sente "parte do time" mas já não deve ser parte de toda decisão.

E sei que é difícil. Não tecnicamente. Emocionalmente. Quando você sai dos chats, perde a fonte de prazer de se sentir necessário. Cada "valeu, Mike" é uma dopaminazinha que seu cérebro espera. No segundo dia da abstinência você vai entender quanto dessa dopamina recebia por dia. Essa, eu acho, é a razão principal de fundadores não saírem dos chats por vontade própria. Não porque o time não dê conta sem eles, mas porque sem os chats não sabem onde se enfiar.


Dois meses depois de voltar olhei os números. O time entregou em março exatamente as mesmas releases de fevereiro (meu último mês de "presença completa"). O tempo de resposta ao cliente no suporte melhorou 18% (o Lyosha credita ao fato de o suporte ter parado de escalar todo espirro pro chat geral). Zero rotatividade, igual antes.

Minhas horas em ops: menos oito por semana. O que faço com essas oito horas é outra conversa. Versão curta — não preencho com trabalho. Liberei pra mim. De manhã esporte, quarta um almoço longo com minha esposa, sexta — nada. Esse é o recurso que falta pros fundadores, não porque não tenha tempo, mas porque eles estão — nos chats.

Mike Fluff← Blog